domingo, 20 de agosto de 2023

IRMÃOS: VALE A PENA TER O SEGUNDO FILHO?

 

(Este texto é parte integrante do livro Pai de Menina²: Como Sobreviver com Duas Filhas, de Eduardo Buzzinari)



Aí, o papai e a mamãe decidem ter o segundo filho.

Ter dois filhos significa, entre outras coisas, ter dois irmãos dentro de casa. No meu caso, duas irmãs – e com uma diferença de pouco mais de dois anos entre a mais velha e a mais nova. Talvez isso não faça muita diferença para o futuro papai que foi filho único. Mas quem já dividiu o quarto, a barriga da mamãe e aquele pacote de biscoitos roubado da cozinha com outro ser que possui mais de 99% do seu DNA sabe muito bem do que eu estou falando.

O irmão é um eterno caso de amor mal resolvido na vida um do outro. É ele quem te ensina a lidar com os sentimentos mais nobres e mais desprezíveis da alma humana. O irmão é aquele que te inspira a mais doce e sincera ternura por ser alguém que divide contigo o mesmo pai, a mesma mãe, o mesmo sobrenome e, muitas vezes, o mesmo lugar no sofá da sala. Também é quem te faz despertar para o mais vil e repulsivo dos ciúmes exatamente por ter que dividir contigo o mesmo pai, a mesma mãe, o mesmo sobrenome e, muitas vezes, aquele disputado lugar no sofá da sala – “sai de cima dessa almofada e me devolve o controle remoto senão eu te esfolo vivo!”

O irmão é o seu inimigo mais íntimo.

É o amigo com quem você mais briga e faz as pazes.

É alguém que você não quer ver nunca mais, mas morre de saudades quando fica distante. Com ele você aprende a amar e odiar ao mesmo tempo uma só pessoa, sem estar casado com ela.

É pau para toda obra. É pano para manga.

É quem vai te defender na escola durante a juventude.

Seja mais novo ou mais velho.

É quem vai estar ao seu lado na hora de dar risada e quem vai te oferecer um lenço se for preciso enxugar as lágrimas.

E, no futuro, é quem vai compartilhar contigo as lembranças do passado. Quando ninguém mais se lembrar delas, a não ser ele.

Até esse ponto, acho que todo mundo concorda.

O difícil é explicar tudo isso para as duas baixinhas, enquanto elas se atracam no tapete do quarto porque o sorvete de uma tem mais cobertura que o da outra. O máximo que você vai conseguir, nessa situação, é um chute na canela ou uma mordida no antebraço. E não se engane. Antes que você possa gritar a mamãe por socorro, elas já terão feito as pazes e estarão rolando de rir pelo chão afora. E o sorvete de chocolate todo derretido sobre o tapete.

Vida que segue, parceiro.

E como não há outra coisa a ser feita, o jeito é se preparar para enfrentar as infinitas crises de ciúmes que ainda virão pela frente. Não importa que a boneca da filha mais nova seja absolutamente idêntica à da filha mais velha. Elas sempre encontrarão um jeito de começar uma discussão porque o cabelo de uma tá assim, o vestido da outra tá assado... E lá vai o superpai separar mais uma briga. Faço isso pelo menos dezenove vezes por dia com minhas duas princesas lutadoras.

Mas no fundo eu sei que elas se amam.

Desde a primeira vez em que se viram.

A Liz chegou da maternidade toda embrulhadinha na manta de tricô e a Lara logo veio correndo para ver a novidade. Ajudou a preparar o berço, dar o banho, trocar a fraldinha e a fazer o curativo no cordão umbilical. Então, saímos eu e ela do quarto para que a mamãe pudesse amamentar a mais nova moradora da casa.

- Gostou da sua irmãzinha, Lara? – perguntei.

- Gostei – respondeu ela, sem muita convicção.

Um minuto de silêncio e a danada emendou em seguida:

- Gostei... Mas a que horas ela vai embora, papai?


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quarta-feira, 27 de abril de 2022


A maior satisfação de escrever um livro é um retorno deste, vindo de alguém inteiramente desconhecido! De certa forma, sinto-me ligado a ele e a tantos outros amigos improváveis que fiz nesta aventura literária! Missão cumprida.



 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Minha Filha disse um Palavrão!

 

(Este texto é parte integrante do livro Pai de Menina²: Como Sobreviver com Duas Filhas, de Eduardo Buzzinari)



Nunca tive problemas com palavrões.

Problemas de ordem moral, quero dizer.

Jamais tive o menor pudor de dizer porra, merda ou caralho e, para ser sincero, até acho que o palavrão tem sua hora e vez numa conversa informal. Aliás, um palavrão bem empregado pode ser mais eficiente que uma descrição de mil palavras, sob o ponto de vista da comunicabilidade. Ou você duvida que um sonoro puta que pariu possa substituir prontamente uma infinidade de explicações longas e tediosas quando tudo à nossa volta dá errado?

Pois é.

Era exatamente isso o que eu pensava até ouvir minha filhinha de dois anos dizer seu primeiro palavrãozinho.

Já passava da hora de dormir e a pivetinha se recusava a subir para o quarto. Pulava no sofá, brincava com as bonecas e corria pela sala a toda energia de suas pilhas alcalinas. Nada a fazia parar. Com muito custo, a mamãe já exausta conseguiu convencê-la a aceitar a mamadeira e seguir o caminho da cama. A baixinha, então, deu uma trégua na correria e passou a caminhar com os passinhos arrastados e sonolentos rumo à escada. Foi quando, ao subir no primeiro degrau, ela se deu conta de que havia esquecido sua boneca favorita largada pelo chão. Aí, a mocinha entregou a mamadeira de volta à mamãe e saiu pisando fundo na direção do brinquedo, não sem antes deixar escapar um inesperado e estrondoso:

- Putapaliu!

O papai fez o que pôde para conter a gargalhada.

A mamãe o fuzilou com o rabo do olho.

 

Quarenta minutos depois.

A filha finalmente dormiu e a esposa agora desce as escadas, furiosa. O homem já preparado para a inevitável discussão.

- Tá satisfeito agora? – dispara ela contra o marido.

- Como?

- Não se faça de desentendido!

- Foi o palavrão, né? Não foi incrível? Ela nem sabe o que significa, mas já conseguiu inseri-lo num contexto inteiramente adequado às circunstâncias. Como é espertinha essa garota...

- E você ainda debocha?

- Ora, vamos... Diz que não foi engraçado?

- Nem um pouco.

- Pelo jeito, a maternidade tirou seu senso de humor.

- E a paternidade deve ter tirado seu senso de responsabilidade. Quantas vezes já lhe falei para não dizer palavrão na frente da menina?

- Ah, corta essa! Você sabe que eu até tento me controlar, mas quando vejo já escapou o bendito...

- Sei...

- E também tem o seguinte: cedo ou tarde ela ia acabar aprendendo essas coisas mesmo.

- Só que não precisava ser tão cedo. Nem dentro de casa.

- Ai, ai...

- E eu pensando que ela só fosse aprender isso quando estivesse na escolinha. Mas, pelo jeito, é ela quem vai ensinar às outras crianças.

- Querida, isso não é o fim do mundo...

- Não, é só uma puta falta de educação.

- Opa! Acho que ouvi um palavrão!

- Ouviu nada! Eu disse puta com significado de muita.

- E puta não é palavrão?

- Seria em outro contexto.

- Ah, certo.

- Que foi? Ninguém é infalível não!

- Então você admite que também fala palavrão?

- Nem fodendo, falo porra nenhuma.

 

Estudos científicos revelam que os palavrões surgem no sistema límbico, que é mais ou menos o porão do cérebro, uma zona mais primitiva de nossa mente que, na maior parte das vezes, é inibida pelo pensamento consciente e costuma aflorar somente quando tropeçamos numa pedra ou quando o atacante do nosso time perde um pênalti na final do campeonato.

Palavrões são assim mesmo.

Imprevisíveis e incontroláveis.

Pior que dor de barriga quando vem com tudo.

E há de se convir que eles fazem parte da língua escrita e falada como fiel expressão de nossos sentimentos mais íntimos. Palavrões traduzem a apoteose da liberdade gramatical. O desatino da sintaxe. A lacuna do dicionário. A revolução do submundo das letras. É a redenção da semântica no resgate da contracultura. E talvez outras coisas mais.

Entretanto, reconheço que existem pessoas cuja sensibilidade poética pode se fazer incomodada em meio às cobras e lagartos da literatura vulgar. Nem todo mundo se sente à vontade nos subterrâneos do idioma formal. E o fato é que estou sinceramente tentando me corrigir. Por isso, desde já, antecipo minhas desculpas a quem achou este texto repugnante e ofensivo.

Espero que não me leve a mal.

Ou então, foda-se!


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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O Sexo dos Caramujos

 

(Este texto é parte integrante do livro Pai de Menina²: Como Sobreviver com Duas Filhas, de Eduardo Buzzinari)


O mundo é gay.

Foi o que me disse, certa vez, alguém cujo nome já não me recordo. Sabe como é, a idade vai avançando e a memória não é mais a mesma de quando era capaz de dizer a escalação do Brasil de 94 de cor. Hoje mal me lembro da dupla Bebeto e Romário. Tinha ainda o Taffarel, o Dunga... E outros nomes me vêm à cabeça, mas já não sei se eram jogadores da seleção ou meus colegas de primário. O fato é que o mundo está ficando cada vez mais gay – o que é ótimo sob vários aspectos.

A liberdade de expressão foi elevada a seu expoente máximo, permitindo que todos manifestem publicamente suas preferências sexuais num carnaval de liberdades que dura o ano inteiro, mesmo fora da Bahia. Todos são livres para escreverem o que pensam na linha do tempo do facebook e postarem suas selfies fazendo pose no espelho. Abaixo a repressão moral! E qualquer comentário debochado ou preconceituoso é impiedosamente condenado ao repúdio coletivo e à execração nas redes sociais.

Tudo isso é maravilhoso, mas pode causar certos embaraços.

Fico pensando, por exemplo, na situação daquele pai e daquela mãe que estão decidindo o nome do bebê. Como fazer a escolha certa sem saber se, no futuro, aquela criança irá assumir uma opção sexual coincidente com a sua anatomia? Talvez fosse o tempo de se atualizar o registro civil para fazer constar duas alternativas na certidão de nascimento: um nome oficial para o sexo presumido e um nome reserva para o plano B – a escolha seria do próprio interessado ao completar dezoito anos. Assim, Sansão poderia se tornar Dalila, João poderia se tornar Joana e Juraci poderia ficar do mesmo jeito, pois tanto faz.

Engraçado que esse assunto me faz recordar a história do sexo dos caramujos, que li, anos atrás, não me lembro mais onde – minha memória anda mesmo péssima, ainda bem que tem o google para uma pesquisa de última hora que confira um mínimo de credibilidade a este texto. Como eu ia dizendo, certos tipos de caramujos trocam de sexo ao longo da vida. Isso mesmo. Trata-se de um engenhoso mecanismo evolutivo que amplia as chances de sobrevivência da espécie, na medida em que cada organismo carrega dentro de si os gametas masculino e feminino. Na prática, o caramujo nasce macho, torna-se fêmea após algum tempo e passa a maior parte da vida nessa condição, voltando a ser macho pouco antes de morrer. É um dos poucos animais que vive a experiência da sexualidade em sua plenitude. Só não imagino a dificuldade para os papais caramujos escolherem um nome que combine com seus filhotes diante dessa multivariedade sexual....

O fato é que, após muito refletir, enfim cheguei a uma conclusão. Os caramujos ainda não sei, mas se eu tiver um terceiro bebê, vou batizá-lo de Ariel. Aí, quando ele crescer, vai poder decidir se quer ser homem, mulher, sereia ou marca de sabão em pó.

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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A Fase dos Porquês


(Este texto é parte integrante do livro Pai de Menina²: Como Sobreviver com Duas Filhas, de Eduardo Buzzinari)


“Por que eu nasci?”
“Por que tenho que comer tudo?”
“Por que o canudo da lanchonete é amarelo?”

É isso aí, parceiro! Bem-vindo à fase dos porquês!
Ah, os porquês...
Se esse assunto já era complicado nas aulas de português, será ainda duas vezes pior na boca da sua pivetinha. Pode apostar! E pode ir se preparando para todo tipo de pergunta improvável, imprevisível, inacreditável e irrespondível. A imaginação da sua filha não conhece fronteiras. E suas dúvidas não respeitam as limitações do cérebro humano, do conhecimento científico ou da barra de pesquisa do google.
Nada escapa à sua curiosidade voraz. Nada.
E cabe aos pobres do papai e da mamãe a espinhosa tarefa de desvendar os mistérios mais inusitados do imaginário infantil. De banalidades do cotidiano a dilemas de alta complexidade filosófica. Tudo junto e misturado.
“Qual o tamanho do universo?”
“Por que não posso entrar na piscina agora?”
“O que acontece depois que a gente morre?”
“Quem era o goleiro da seleção na copa de 74?”
“Como o coelho da páscoa bota ovo se ele é mamífero?”
E o pai explode antes de bater a cabeça na parede.
- Calma, pelamordedeus! Uma pergunta de cada vez! O homem caminha pela face da Terra há cinquenta mil anos sem saber de onde veio e para onde vai e você quer todas as respostas em cinco minutos! Pai também tem direito à dúvida!

Mas não adianta reclamar... Pai e mãe precisam saber um pouquinho de cada assunto – pelo menos o bastante para ensaiar um improviso minimamente plausível – já que os baixinhos nunca aceitam o silêncio como resposta. E haja pergunta! Por quê? Por quê? Por quê? Parece que os porquês vão se sucedendo numa escalada vertiginosa rumo ao infinito. Sem pausa para tomar fôlego. E, muitas das vezes, desembocam num interminável círculo vicioso de insistência.
- Por que tenho que comer?
- Para crescer e ficar forte.
- Por que tenho que crescer?
- Para trabalhar.
- Por que tenho que trabalhar?
- Para ganhar dinheiro.
- Por que tenho que ganhar dinheiro?
- Para comprar comida.
- E por que tenho que comer?

Em outras ocasiões, os questionamentos dos pequeninos esbarram numa partícula indivisível e inexplicável do conhecimento humano. Como num quebra-cabeça em que sempre falta uma peça.
- Como eu nasci?
- O papai plantou uma sementinha na barriga da mamãe e tal e coisa e coisa e tal... (você já conhece essa história)
- Mas como nasceu o primeiro homem?
- Bom, o Papai do Céu o criou a partir do barro...
- E como nasceu o Papai do Céu?
- Hã...

Estudos recentes indicam que uma criança na faixa dos três anos pode chegar a fazer trezentas perguntas por dia. Tre-zen-tas. É muito ponto de interrogação para a cabeça de qualquer papai ou mamãe. Eu aposto que nem no vestibular você teve que encarar tanta dúvida pela frente – e sem as opções de múltipla escolha dessa vez!
Pensando nisso – e para encerrar o capítulo – preparei uma lista das perguntas mais frequentes do imaginário infantil e sugestões de respostas para que você não fique gaguejando na frente da sua filha quando ela vier com aquela avalanche de interrogações. Lembre-se de que a regra de ouro é falar a verdade! Mas não fique grilado se tiver que contar uma mentirinha inocente para evitar uma resposta embaraçosa ou complicada demais para a cuca da baixinha.
Então lá vai o questionário:
- Pai, por que o céu é azul?
- Porque se fosse branco ninguém iria enxergar as nuvens.
- Existem extraterrestres no espaço?
- Claro que sim. Seu Tio Marcelo, por exemplo. Tenho certeza de que ele veio de outro planeta.
- Por que os dinossauros desapareceram da Terra?
- Foi de tanto fazerem malcriação. Se eles escovassem os dentes direitinho todos os dias, estariam por aí até hoje.
- O que são namorados?
- São uns monstros horríveis que ficam querendo te levar para longe do papai. Deixa que eu te protejo deles.
- De onde vêm os bebês?
- Pergunta essa para sua mãe que ela entende desse assunto melhor que eu.
- É verdade que o Papai Noel mora no Polo Norte?
- É sim. Até porque, se ele morasse no Rio, ia morrer de calor com tanta roupa.
- Por que tenho que ir à escola?
- Porque a escola não tem como vir até você. Ela não anda.
- Quanto é um trilhão vezes infinito?
- Um montão de números. Vou fazer a conta e te respondo amanhã sem falta.
- Por que cachorro não fala?
- Mas eles falam sim. Só que na língua deles.
- Quem inventou a batata frita?
- Algum desocupado com tempo de mais e filhos de menos.
- Por que existe gente malvada no mundo?
- Boa pergunta. Taí uma coisa que eu também queria saber.
E, por último, minha resposta favorita para escapar de qualquer tipo de enrascada:
- Por que tenho que dormir tão cedo?
- Porque eu sou seu pai e sou eu quem mando.
E ponto final.

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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Uni, duni, tê-três filhos



pai de menina - eduardo buzzinari
(Conheça o livro Pai de Menina: Bem-vindo ao Mundo Cor de Rosa, de Eduardo Buzzinari)



O primeiro filho come terra.
Os pais ligam para o pediatra.
O segundo filho come terra.
Os pais limpam sua boca com um paninho.
O terceiro filho come terra.
Os pais se perguntam se precisam fazer o almoço.

A chupeta do primeiro filho cai no chão.
Os pais a esterilizam com álcool e água fervida.
A chupeta do segundo filho cai no chão.
Os pais a assopram e depois a limpam na própria roupa.
A chupeta do terceiro filho cai no chão.
Os pais ensinam o cachorro da família a buscá-la e a colocam de volta na boca da criança.

O primeiro filho faz caquinha.
Os pais trocam a fralda de imediato.
O segundo filho faz caquinha.
Os pais esperam até a hora do banho para trocar a fralda.
O terceiro filho faz caquinha.
Os pais só trocam a fralda quando as outras crianças começam a reclamar do mau cheiro.

As recordações do primeiro filho.
Os pais tiram fotos de todos os momentos, guardam fios de cabelo, dentes de leite e até o cordão umbilical.
As recordações do segundo filho.
Os pais mal se lembram das fotos do primeiro aniversário.
As recordações do terceiro filho.
Os pais desconhecem por completo sob que circunstâncias ele chegou ao mundo.

O primeiro filho chora.
Os pais correm na mesma hora para ver o que aconteceu.
O segundo filho chora.
Os pais aparecem quando os gritos começam a incomodar os vizinhos.
O terceiro filho chora.
Os pais ensinam o filho mais velho a dar corda no móbile do berço e rezam para que funcione.

O primeiro filho engole uma moeda.
Os pais correm para o pronto-socorro e pedem um raio-x.
O segundo filho engole uma moeda.
Os pais ficam observando até que ela saia.
O terceiro filho engole uma moeda.
Os pais anotam o prejuízo para descontar das futuras mesadas.

O primeiro filho dorme.
Os pais ficam em silêncio absoluto.
O segundo filho dorme.
Os pais ficam tentando fazer o mais velho calar a boca.
O terceiro filho dorme.
Dorme? Quem é que consegue dormir com três crianças em casa?

O armário do primeiro filho.
Os pais compram roupinhas de todos os modelos e tamanhos, lavam, dobram e arrumam tudo por gradação de cor.
O armário do segundo filho.
Os pais conferem se as roupas do mais velho estão limpas e jogam fora aquelas com manchas escuras.
O armário do terceiro filho.
Quem disse que menino não pode usar rosa?

O primeiro filho vai viajar pela primeira vez.
Os pais preparam uma maleta de comida orgânica.
O segundo filho vai viajar pela primeira vez.
Os pais compram alguns potes de papinha pronta.
O terceiro filho vai viajar pela primeira vez.
Cadê a criança? – perguntam-se os pais depois de bater a porta do carro.

No banho do primeiro filho.
A água é filtrada e a temperatura controlada por um termômetro.
No banho do segundo filho.
A água é da torneira, mais ou menos quentinha.
No banho do terceiro filho.
O mais novo é enfiado debaixo do chuveiro junto com os outros dois e salve-se quem puder.

O primeiro filho fica sozinho com a avó.
Os pais ligam de cinco em cinco minutos.
O segundo filho fica sozinho com a avó.
Os pais ligam apenas uma vez na hora do remédio.
O terceiro filho fica sozinho com a avó.
Os pais recomendam expressamente que ela só entre em contato se houver sangue.

O primeiro filho vai nascer.
Os pais comemoram e ligam para os parentes e amigos.
O segundo filho vai nascer.
Os pais se entreolham com um sorriso amarelo.
O terceiro filho vai nascer.
Taqueopariu.

Em casa com o primeiro filho.
Os pais passam o tempo todo atrás dele.
Em casa com o primeiro e o segundo filho.
Os pais conferem, de vez em quando, se o primeiro não está esganando o segundo.
Em casa com o primeiro, o segundo e o terceiro filho.
Os pais se escondem no banheiro o máximo que puderem.
Socorro!

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Primeiro Dia na Escolinha


(Este texto é parte integrante do livro Pai de Menina²: Como Sobreviver com Duas Filhas, de Eduardo Buzzinari)


A Belinha vivia dizendo que não tinha tempo para nada. Também pudera. Desde que a Michele nasceu, as duas não haviam passado nem cinco minutos longe uma da outra. Era um grude só! Fosse na cama, na cozinha ou no banheiro, as duas estavam sempre juntas. Onde a Michele ia, lá estava a Belinha atrás. E a zelosa mamãe fazia questão de cuidar da filha sozinha, quando muito, com a ajuda do marido. Era ela quem fazia a comida, dava o banho, trocava a fralda, preparava a mamadeira e colocava a menina para dormir. Se fosse um jogador de futebol, seria daqueles que cobra o escanteio e corre na grande área para cabecear a bola. Ao fim do dia, como era de se prever, ela dizia “estou morta, hoje não tive tempo de fazer nada para mim” – verdadeiramente exausta, mas com uma pontinha de orgulho.
Até que chegou o dia da Michele ir para a escolinha.
Belinha acordou mais cedo que o habitual, preparou o almoço com uma hora de antecedência, pôs o material na mochilinha, arrumou a merendeira e penteou um lindo rabo de cavalo no cabelo da menina. Ao meio dia, o portão do colégio separou mãe e filha pela primeira vez na vida.
Horas depois, o marido encontra a esposa sentada na mesa da cozinha, de frente para o relógio de parede.
- Que cara é essa, Belinha?
- Nada, tô só vendo o tempo passar.
- Hum... E a Michele? Ficou bem na escolinha?
- Melhor até que eu imaginava.
- Que bom! Primeiro dia de aula é um barato, né?
- Pra ser sincera, nunca vi muita graça nisso.
- Ah, qual é? Me lembro, como se fosse hoje, daquele cheirinho de massa de modelar misturado com giz de cera. E a turma toda só esperando o portão abrir para correr até as salas...
- Pois eu sempre detestei esse cheiro.
- Não é possível! E o cheirinho de papel de mimeógrafo?
- Nem me lembro.
- Como não?
- Vai ver não era da minha época.
- Ih, já vi que tá mal-humorada...
- Impressão sua.
- Ah, saquei! É por causa da Michele... Tá com saudades da nossa filhota, né?
- Tô só aqui pensando se ela ainda não é muito nova para ir à escola. Acho que nos precipitamos...
- Mas é claro que não. Tá na hora dela começar a conviver com outras pessoas.
- Pra quê outras pessoas se ela já tem a mim?
- Ora, Belinha... Ela precisa interagir com outras crianças. Gente da idade dela.
- Ai, nem me fala nisso. Imagine só a quantidade de germes e bactérias que não deve ter nessas outras crianças... Já tou até vendo... Num dia ela vai me aparecer com piolho, noutro com catapora... Logo ela que nem resfriado nunca teve...
- Não se preocupe, ela vai sobreviver.
- E se ela tiver vontade de ir ao banheiro?
- Que que tem?
- A turma deve ter uns trinta alunos... Será que a professora vai conseguir dar atenção a todos?
- Fica tranquila, ela dá um jeito.
- Em todo caso, acho que não custa eu ir até lá e ver se ela tá precisando de uma ajuda. Quem sabe...
- Que exagero, Belinha!
- Você acha?
- Claro! Não vá fazer a garota pagar esse mico... Olhe, pense no lado positivo: agora você finalmente vai poder tirar um tempinho para si mesma, pode fazer aquele curso de fotografia que sempre quis...
- Não quero mais.
- E que tal voltar ao pilates? Você vivia reclamando que não tinha tempo para malhar...
- Perdi a vontade.
- Pode ler um livro, assistir a um filme, criar uma ONG em defesa do jacaré-açu da Amazônia...
- Tá me chamando de desocupada?
- Não é isso, Belinha... Só tou querendo ajudar.
- Pois muito ajuda quem não atrapalha.
- Ah, é assim? Então fica aí curtindo sua depressão e devorando um chocolate após o outro até dar a hora da saída. Eu desisto.
- Falando em hora da saída, acho que já vou indo pro portão do colégio. Afinal, falta só uma hora e meia para terminar a aula...
- Você é quem sabe. Mas é bom ir se acostumando à nova rotina, porque amanhã tem mais.
- Amanhã? P-precisa voltar amanhã?

Nota do autor: na concepção original deste texto, era a filha quem fazia essa pergunta à mãe após um exaustivo primeiro dia de aula. Mas circunstâncias externas, surpreendentemente mais próximas da realidade, fizeram-me mudar o foco da narrativa...

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